sábado, 19 de março de 2016

Primeiros neandertais viveram em Espanha há 430.000 anos

Equipe obteve pedaços de ADN com mais de 400.000 anos de ossos
encontrados em Atapuerca. Agora põe a hipótese de os neandertais se
terem misturado com população desconhecida que veio para a Europa.

O complexo quebra-cabeças da evolução humana acaba de ganhar mais uma
peça vinda de Sima de los Huesos, na serra de Atapuerca, em Espanha.
Neste poço natural com 13 metros de profundidade estão ossadas de 28
humanos que viveram há 430.000 anos. Uma nova sequenciação do ADN de
ossos de dois humanos permitiu concluir que os indivíduos daquela
população podem ser considerados os "primeiros neandertais", segundo
um estudo publicado ontem na revista científica Nature.

"Eles são os primeiros neandertais (ou os mais velhos) "certificados"
pela análise do ADN", explica Matthias Meyer, da equipa de Svante
Pääbo, o famoso biólogo que se especializou em genética aplicada à
evolução humana, do Instituto Max Planck, em Leipzig (Alemanha).

Nos últimos anos, tem-se debatido a espécie a que pertenciam os
humanos de Sima de los Huesos. Primeiro, pensava-se que eram
representantes do Homo heidelbergensis, um suposto antepassado directo
dos neandertais. Parte da morfologia do crânio e os dentes desta
população de Espanha já eram idênticos aos dos neandertais.

Mas em 2013, a equipa de Svante Pääbo veio baralhar aquela ideia. Os
cientistas fizeram a sequenciação mais antiga de sempre de ADN humano,
neste caso de ADN mitocondrial - o material genético que existe nas
mitocôndrias, as baterias das células, que se herda pela via materna.
E a sequenciação indicava que aqueles humanos estavam mais próximos
dos denisovanos (uma espécie descoberta na Sibéria, que em 2010 veio
tornar a evolução humana mais complexa) do que dos neandertais.

Os resultados eram surpreendentes. "O facto de o ADN mitocondrial do
homem primitivo de Sima de los Huesos partilhar um antepassado comum
com os denisovanos e não com os neandertais é inesperado, uma vez que
o seu esqueleto tem características derivadas dos neandertais", disse
na altura Matthias Meyer, que participou no estudo.

Há ossadas e vestígios na Europa e na Ásia associados à anatomia e à
cultura tipicamente neandertais com idades entre os 40.000 e os
300.000 anos. Por outro lado, os humanos modernos (a nossa espécie),
que evoluíram em África, migraram para a Europa e Ásia há menos de
80.000 anos, reproduzindo-se com os humanos que existiam naqueles
continentes, mas sobretudo substituindo-os. Há 28.000 anos, os
neandertais extinguiram-se. Finalmente, a genética mostrou que, há
50.000 anos, existia outra população humana na Ásia, os denisovanos.
Conhecem-se só dois dentes e um pedaço de falange, pelo que a sua
anatomia é um mistério.

Assim, há muitas questões que estão por responder. Quando se deu a
separação dos antepassados dos humanos modernos, dos neandertais e dos
denisovanos? Qual o lugar dos humanos de Sima de los Huesos nesta
árvore evolutiva? E como integrar informações que aparentemente se
contradizem, como é o caso de os humanos de Sima de los Huesos terem
uma anatomia semelhante à dos neandertais e um ADN mitocondrial mais
perto do dos denisovanos?

Os novos resultados dão algumas respostas. A equipa de Svante Pääbo
conseguiu obter ADN nuclear (no núcleo das células e menos frequente
do que o ADN mitocondrial, já que cada célula só tem um núcleo mas
milhares de mitocôndrias) a partir de um dente incisivo e de um fémur
de dois indivíduos diferentes.

Mesmo assim, a quantidade de ADN nuclear obtida foi apenas 0,07% do
genoma humano total, mas permitiu compará-lo com o genoma das outras
espécies humanas. "As sequências [genéticas] assemelham-se mais com as
dos neandertais do que com a dos denisovanos, mostrando que os humanos
de Sima de los Huesos estavam relacionados com os neandertais e não
com os denisovanos", explica-nos Matthias Meyer.

Os novos dados são compatíveis com a estimativa da separação da
linhagem dos neandertais e a dos denisovanos "entre há 381.000 e
473.000 anos", explica-se no artigo. Este cálculo foi feito com base
na comparação dos genomas dos dois tipos de humanos, que permitiu
estimar o momento da divergência entre ambos, ao ter-se em conta o
número de mutações genéticas que vão surgindo ao longo do tempo nas
populações humanas. "Este rácio de mutações também sugere que a
separação entre os humanos arcaicos [que deram origem aos neandertais
e denisovanos] e os humanos modernos ocorreu entre há 550.000 e
765.000 anos", segundo o artigo.

Mas mantém-se uma pergunta. Por que é que o ADN das mitocôndrias dos
primeiros neandertais de Sima de los Huesos tem mais semelhanças com o
ADN mitocondrial dos denisovanos e menos com o ADN mitocondrial dos
neandertais que apareceram mais tarde? Uma hipótese avançada no artigo
é que o ADN mitocondrial dos neandertais que depois povoaram a Europa
- portanto, descendentes dos neandertais de Sima de los Huesos - seja
fruto de cruzamentos que entretanto aconteceram com uma população
desconhecida de humanos, vinda de África.

"Não há provas genéticas de uma migração vinda de África ocorrida
entre a altura dos humanos de Sima de los Huesos (há 430.000 anos) e a
chegada dos humanos modernos (entre há 40.000 e 80.000 anos)", diz
Matthias Meyer. "Poderemos testar essa hipótese se obtivermos mais
informação do ADN nuclear dos humanos de Sima de los Huesos e a
compararmos com o ADN dos neandertais mais recentes."
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