domingo, 27 de setembro de 2015

E no princípio estavam as avós

A antropóloga Kristen Hawkes tem vindo a estudar o papel das avós na
sociedade humana e nas espécies que nos são mais próximas. E conclui
que é por causa da existência destas cuidadoras que temos evoluído
para a monogamia, uma tese que colhe discórdia entre os antropólogos.

O que fazem as avós? Alimentam-nos, dão-nos mimos e estão
constantemente a dar-nos a volta com perguntas sobre o nosso estado
amoroso. Mas às avós pode também estar reservado outro papel, pelo
menos de acordo com a antropóloga Kristen Hawkes, que diz serem elas a
força motriz por detrás da evolução de grande parte da sociedade
humana.

Hawkes, especialista em evolução humana e biologia social na
Universidade do Utah, é autora de vários estudos sobre a "hipótese
avó", na qual defende que muitas das características que nos
distinguem dos nossos antepassados macacos se devem ao papel de
cuidadoras extremadas que são as mães das nossas mães. No último
estudo, que foi publicado há uma semana na Proceedings of the National
Academy of Sciences (também conhecido como PNAS, a revista científica
da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos), Hawkes e os
outros co-autores explicam como a "instituição avó" é um factor
crucial na disseminação da monogamia.

A explicação tradicional da evolução humana diz que, quando as avós
começaram a ajudar a criar os netos, as filhas ficaram libertas para
procriar mais e em períodos mais curtos de tempo. Essas avós de longa
duração acabaram por ter mais netos e estes, por sua vez, acabaram por
herdar os genes dessa longevidade e assim ajudaram ao aumento da
esperança de vida.

O homem, por sua vez, aproveitou as vantagens de ter uma vida mais
longa e de passar a usufruir de redes sociais mais alargadas e optou
pelo acasalamento com uma única mulher, e daí as relações humanas se
terem tornado monogâmicas. Não admira que sejam sempre as avós a
lembrar-nos de que ainda não casámos! A sequência de eventos que liga
a existência das avós à relação monogâmica pode ser rebuscada mas é
sem dúvida atractiva. Começa, como defende Hawkes, com um povo do
Norte da Tanzânia, os Hadza. A antropóloga começou a estudar os Hadza
no anos 1980. São dos últimos caçadores-recolectores do mundo e desde
há dezenas de milhares de anos que mantêm o mesmo estilo de vida. Não
se dedicam à agricultura mas à caça, à imagem do que já faziam os seus
antepassados, e são por isso uma raríssima janela aberta sobre o
passado pré-histórico do homem, como justifica a antropóloga.

Uma das muitas coisas que tanto Hawkes como os seus colegas acabaram
por concluir é que as anciãs do povo Hadza eram "fantásticas
recolectoras de tubérculos", diz a antropóloga. "Era nas mãos delas
que estava a tarefa de encontrar este precioso recurso alimentício.
Para os mais pequenos, precisamente por serem ainda pequenos, seria
difícil descobrir os tubérculos, mas elas faziam-no e davam-nos a
comer às crianças." Para nós, que temos avós que insistem em
encher-nos o estômago sempre que as visitamos, esta ideia pode parecer
até mundana. Mas foi uma espécie de momento "eureka" para Hawkes.

Como qualquer documentário sobre natureza pode atestar, as prioridades
no mundo animal são: 1.) procurar alimento; 2.) procurar companheiro.
Dito isto, percebe-se que, no mundo animal, a presença de uma fêmea na
comunidade já depois de ter passado o seu tempo fértil é uma anomalia.
Entre os primatas, os humanos são a única espécie que continua a viver
para além da menopausa. A possibilidade de procriar é o que comanda a
evolução de uma espécie e não há qualquer razão evolucionista válida
que justifique a permanência de elementos femininos que há muito
passaram o seu apogeu como reprodutoras. A não ser, como sugere
Hawkes, que passem ao papel de avós.

Em 1997, Hawkes e os seus colegas antropólogos James O'Connell e
Nicholas Blurton Jones publicaram um estudo no jornal Current
Anthropology no qual defendiam que a esperança de vida na mulher tem
aumentado e evoluído na medida em que foram desenvolvendo um papel
mais significativo enquanto cuidadoras dos mais novos. Com uma mãe-avó
por perto, a filha podia ter mais crianças e com gravidezes mais
próximas, pois, ao invés de esperar que o mais novo cresça e seja
independente até ter o próximo, contava já com essa preciosa ajuda
(entre os primatas, os humanos são também os únicos que dão à luz uma
segunda cria antes de a primeira estar completamente desenvolvida).

Quanto mais uma mulher viva além do seu apogeu reprodutor, mais netos
terá a possibilidade de vir a criar. Quer isto dizer que as avós de
longa duração acabaram por ter descendências mais alargadas e também a
possibilidade de disseminar os seus genes da longevidade. O resultado
ao longo de milénios foi que a esperança de vida da mulher para além
da idade fértil multiplicou-se por décadas. Em 2012, Hawkes esteve a
trabalhar com uma especialista australiana em estatística para
arranjar um modelo matemático para estudar este processo. E chegaram
ambas à conclusão de que ao longo de 60 mil anos as avós quase
conseguiram duplicar a esperança média de vida por comparação com os
nossos primos macacos mais próximos. Com este resultado - humanos que
vivem muitos mais anos do que alguma vez aconteceu na história da
evolução humana -, Hawkes fez-se esta pergunta: então e o que se passa
com os homens?

Ao contrário da mulher, a fertilidade masculina não entra em declínio
por volta dos 40 anos. Significa isto que as sociedades humanas têm
tido muito mais homens férteis do que mulheres com quem estes possam
acasalar. E isto foi uma grande mudança desde as sociedades
matriarcais dos nossos antepassados e familiares primatas, nas quais
normalmente o número de fêmeas em idade fértil ultrapassava o dos
machos (numa linguagem das ciências da natureza, os machos tendiam a
passar mais tempo a caçar e na luta, correndo por isso muito mais
riscos de morrer prematuramente). Há três modos de os machos
maximizarem a sua descendência de acordo com aquilo que manda a
natureza, e que é o prolongamento da espécie: podem tentar acasalar
com o maior numero possível de fêmeas; podem ficar com uma só fêmea e
tentar impedir que outros machos se aproximem dela; ou podem ainda
investir tempo e recursos na educação das crias que já tenham. Na
maioria das espécies, o que se verifica é que os machos optam pela
primeira situação já que a "senhora" engravida e depois fica a tomar
conta da "ninhada". É por isso que os bonobos, ou chimpanzés-pigmeus -
os nossos parentes mais próximos - , têm taxas astronómicas de
interacções sexuais.

Se olharmos para o caso masculino, no rácio de adultos em idade
fértil, o papel de Don Juan pode tornar-se mais arriscado. Por serem
altamente competitivos, "para eles, a vantagem acaba por ser manterem
vigilância sobre as mulheres que já têm", como diz Hawkes. Para estes
homens de longa duração, acasalar para a vida, manter e proteger uma
só mulher e os seus filhos acabou por se tornar uma vantagem da
evolução. E foi assim que nasceu a relação monogâmica, como sustentam
Hawkes e os seus colegas no estudo agora publicado no PNAS. A
"hipótese avó", acreditam Hawkes e os seus colegas, pode ainda revelar
outras qualidades humanas únicas: aumento do tamanho do cérebro
(porque quem vive mais anos pode dedicar mais tempo à aprendizagem e
retirar daí as respectivas recompensas); comunidades mais complexas
(porque educar uma criança deixou de ser uma tarefa independente para
passar a ser um esforço conjunto); maiores indíces de competitividade
(promovidas precisamente pelo aumento do tamanho do cérebro e pelas
comunidades mais alargadas); e até empatia (porque redes sociais mais
extensas requerem de todos nós uma evolução no sentido do respeito e
compreensão pelo outro).

"Quando começamos a levar a sério esta "hipótese avó" é espantoso o
quanto ela nos pode transmitir [sobre a vida em sociedade]", diz
Hawkes. "É uma fonte verdadeiramente rica para tantas outras
actividades." Nem toda a gente está de acordo sobre a "hipótese avó",
bastante controversa no mundo da antropologia. Muitos estudos têm
defendido que, para a evolução humana, o contributo das avós é
insuficiente para justificar o crescimento tremendo da longevidade
humana. Outros estudos lembram que a hipótese de Hawkes descura o
papel dos elementos masculinos das comunidades caçadoras-recolectoras,
incluindo os próprios Hadza, de que são os homens o garante da maior
parte da alimentação dos mais novos do grupo.

Há uma teoria sobre a menopausa que compete com a de Hawkes mas
defende que a mesma se deve ao conflito entre as mulheres de
diferentes gerações. Noutras espécies, como por exemplo nos elefantes,
as fêmeas mais jovens suprimem a sua fertilidade enquanto houver
fêmeas mais velhas a procriar, de modo a não entrarem em competição
directa na busca de segurança ou de alimentos. Hawkes refuta estas
teses argumentando que a "hipótese avó" é desconfortável para muitos
cientistas simplesmente porque vira do avesso as crenças arreigadas
sobre as sociedades humanas. "A cartilha que nos é contada" sobre
monogamia, como diz esta antropóloga, é que ela começa no seio de
famílias nucleares e relações duradouras e estáveis. Se essas relações
estivessem para durar, então as mulheres mais depressa estariam
disponíveis para acasalar com os melhores machos caçadores de forma a
que comunidades mais alargadas e inteligentes se pudessem formar.

"Já conhecemos de gingeira a história do Ozzie & Harriet e do Leave it
to Beaver[séries americanas sobre a vida familiar dos anos 1950]", diz
Hawkes, não sendo por isso de estranhar que os antropólogos tomem os
seus exemplos por garantidos.

O que a "hipótese avó" sugere é que a monogamia pode não ser uma
qualidade inata porque na narrativa desta antropóloga ela é estudada
ao longo dos tempos e apresentada como resposta às circunstâncias de
cada momento, tal qual outra adaptação do humano à evolução. Talvez as
conclusões a que chega possam não ser particularmente românticas, mas
ainda assim pode vir a ser uma hipótese a ter em conta. Tentem
perguntar à vossa avó na próxima vez que elas vos ligar.
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